De onde vem a Kûara?

Antes de existir a Kûara, existia uma pesquisa.
Em 2023, defendi meu doutorado em Geografia na UFMG com a tese O patrimônio na composição do mundo comum: outra topografia, novas paisagens.
Naquele trabalho, eu investigava uma questão que continua me acompanhando: como diferentes formas de conhecimento, de existência e de relação com o território podem participar da construção do mundo que compartilhamos?
A pesquisa nasceu do encontro com o patrimônio, mas foi aos poucos se deslocando para uma questão mais ampla. Eu queria compreender o que acontece quando deixamos de olhar para determinados saberes, objetos, lugares e modos de fazer apenas como coisas que precisam ser preservadas, classificadas ou explicadas, e passamos a reconhecê-los como participantes ativos na produção da vida.
A tese me levou a questionar categorias que parecem dadas, a acompanhar os atores que as produzem e a perceber que o conhecimento não está somente nos livros, nas universidades ou nas instituições. Ele também está nos territórios, nos objetos, nos materiais, nas práticas, nas experiências e nas relações que estabelecemos com o mundo.
É justamente nesse ponto que a Kûara começa a fazer sentido para mim.
A Kûara é um desdobramento dessa trajetória.
Quando eu volto para o barro, para os fornos, para o fogo e para os saberes envolvidos na cerâmica, não estou simplesmente abandonando a pesquisa acadêmica para fazer outra coisa. Estou levando algumas das perguntas que me acompanharam na universidade para outro campo de experimentação.
O barro passa a ser também uma forma de pesquisa.
O forno, um lugar de produção de conhecimento.
A queima, um acontecimento compartilhado entre matéria, técnica, fogo, atmosfera e quem faz.
O território, uma fonte de conhecimento.
E a prática, uma forma de pensar.
É por isso que a Kûara se apresenta como arte e pesquisa em cerâmica.
A ideia não é transformar a cerâmica em objeto de estudo acadêmico, nem transformar a Kûara numa extensão da universidade. É justamente experimentar o que acontece quando o conhecimento circula por outros caminhos.
Da universidade para o quintal.
Da biblioteca para o barro.
Da teoria para o fazer.
Do território para a matéria.
E da matéria de volta para o pensamento.
A Kûara nasce desse movimento.
Ela é, para mim, uma continuidade da pesquisa por outros meios: uma tentativa de produzir conhecimento a partir da experiência, de recuperar autonomia sobre os processos e de criar espaços onde diferentes saberes possam se encontrar sem que um precise necessariamente ocupar o lugar de autoridade sobre o outro.
Por isso, apresentar a minha tese aqui não é fazer uma retrospectiva da minha vida acadêmica.
É apresentar uma das raízes da Kûara.
Porque antes de perguntar como fazer uma peça, eu já estava interessada em perguntar quem produz conhecimento, onde ele é produzido, quais saberes reconhecemos e quais deixamos de reconhecer.
Hoje, essas perguntas aparecem nas mãos, no barro, no fogo e nos fornos que construímos.
E é desse lugar que a Kûara pesquisa.